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terça-feira, 26 de junho de 2007

A ressaca do ecstasy

do site da CARTA CAPITAL
por Phydia de Athayde
Estudo inédito analisa os efeitos sobre usuários no intervalo de cinco anos

Se você tomar uma dessas pílulas, sentirá a música de uma maneira totalmente nova, o corpo energizado, uma vontade de abraçar todo o mundo e, no dia seguinte, ficará meio deprimido. Esse é o ciclo básico de uma experiência com ecstasy e resume boa parte do que se sabe sobre o uso da droga. Mas o que acontece com os usuários anos depois? Um estudo sem precedentes no mundo tem a resposta e acaba de ser concluído. O psicólogo Murilo Battisti, pesquisador da Universidade Federal de São Paulo, acompanhou um grupo de usuários em um intervalo de cinco anos e identificou não só padrões de consumo, mas também o que leva alguns a abandoná-la e outros a manter ou substituir a pílula pela cocaína. Com exclusividade para CartaCapital, detalhes e conclusões do estudo.

A pesquisa é um acompanhamento da história natural do uso de ecstasy. Battisti é estudioso do consumo de drogas sintéticas no Brasil e descreve o perfil do usuário. “O principal contexto de uso está ligado à cena da música eletrônica. O usuário é o jovem adulto, de classe média a alta, consumidor de outras drogas (lícitas e ilícitas) e com baixa percepção dos riscos do ecstasy”, explica.

Nesse espectro, Battisti identificou dois grupos. De um lado, a “geração rave”, universitários que consumiam a droga há dois ou três anos, geralmente em raves e clubs, em doses pequenas (de meio a dois comprimidos) e de forma esporádica. Do outro, o “mundinho da noite”, profissionais das festas e casas noturnas movidas a música eletrônica (DJs, promoters, hostess etc.) que consumiam a droga há cinco anos, geralmente em clubs, em doses altas (de dois a seis comprimidos) e com muita freqüência.

No intervalo entre 2001 e 2006, para os universitários a droga ou desapareceu ou seu consumo diminuiu para menos da metade. “Esse grupo passou a assumir papéis adultos na vida e tomar ecstasy perdeu o sentido”, diz Battisti, que classifica este como um padrão transitório de uso da droga. Os oriundos da geração rave apontaram, com o tempo, mais preocupação com a saúde e melhor percepção dos riscos do ecstasy.

No grupo da noite, por sua vez, o ecstasy continuou, com uma tendência à moderação na quantidade e ao retorno à cocaína (que já consumiam). “A vida desse grupo mudou pouco e, para eles, tomar ecstasy é quase uma conseqüência do trabalho”, analisa o pesquisador. Este grupo mencionou, depois de cinco anos, o aumento dos efeitos adversos – como a depressão – e a má qualidade da pílula como desestímulos ao consumo.

Um único usuário aumentou o consumo. De perfil “geração rave” (75% dos pesquisados), o jovem apresentava sinais de uso compulsivo em 2001 que se confirmaram em 2006. Ele é fisicamente dependente de ecstasy, um fato raro no uso da droga.

A pesquisa de Battisti é qualitativa e não deve ser avaliada por números absolutos. O grupo estudado teve 32 usuários na primeira etapa e 21 na segunda, pois alguns perderam contato e outros não quiseram prosseguir. “A amostra é numericamente pequena, mas é possível fazer inferências na população porque os perfis se repetem na sociedade”, explica.

Não há dados quantitativos sobre consumo de ecstasy no Brasil e as estimativas são feitas a partir de apreensões feitas pela Polícia Federal. Entre a primeira e a segunda etapa da pesquisa, elas tiveram um aumento substancial (de 1.909 para 19.094 comprimidos). De janeiro a maio deste ano, a apreensão já passa de alarmantes 171 mil unidades. Embora isso possa ser reflexo de maior eficiência nas operações policiais, é razoável supor que haja um aumento na demanda. Todos os anos o Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC) divulga o Relatório Mundial das Drogas. As informações relativas ao Brasil vêm dos números da PF. A edição de 2007 sai no dia 26 deste mês e, provavelmente, alertará para o aumento do consumo de ecstasy no País.

Não é difícil encontrar usuários e ex-usuários em grandes núcleos urbanos como São Paulo. A figurinista paulistana Karina, de 30 anos, usou a droga como transição para a vida adulta. Começou a tomar ecstasy aos 23. “Foi fase, coisa de moleca. Eu ganhava grana, saí de casa e tinha um namorado que tomava muito. Eu ia na dele, usava várias drogas e tomava bala (ecstasy) todo fim de semana, de três a cinco por noite, em clubes de música eletrônica”, diz.
No auge do consumo, Karina começou a sentir mais “crises de choro, sensação de morte”. Procurou um psiquiatra, foi diagnosticada com depressão e tratou-se por seis meses. “Resolvi colocar minha vida em ordem. Mudei de profissão, decidi cursar moda, voltei para a casa dos meus pais, terminei aquele relacionamento”, relata. Hoje Karina não quer mais saber da droga: “Não uso nem maconha. Tenho outras motivações, amo meu trabalho, gosto de acordar cedo, ter a cabeça ativa. Não me interessa mais estar fora do ar”. Do antigo namorado, más notícias. Ele tornou-se dependente de cocaína. “Aquele lá se perdeu para sempre”, diz ela.

O psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira coordena o Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad) da Unifesp e descreve uma sensação comum a quem toma ecstasy: “No início relatam efeitos fantásticos. Depois aumentam os problemas, e eles sempre esperam reviver aquela primeira sensação”.

Silveira diz que a dependência de ecstasy é rara. A médio e longo prazo, acredita-se que a droga provoca depressão e transtornos psíquicos ansiosos, como síndrome do pânico e fobia social, em usuários com predisposição. “Mesmo sem a droga, a maioria ainda terá de tratar os problemas por ela desencadeados”, alerta. Na parcela sem predisposição aos transtornos, ele acredita que o ecstasy possa ter papel semelhante ao da maconha. “Grande parte abandona o uso depois de alguns anos e segue a vida”, diz, mas ressalta que “há pessoas viciadas em um estado alterado de consciência, usuários compulsivos de qualquer droga”.

A pesquisa de Murilo Battisti trata de usuários contumazes em 2001. Desde então, o consumo da droga ganhou novos contornos. “Esse estudo é relevante por nos dar diretrizes para pensarmos medidas de saúde pública adequadas”, afirma Ana Regina Noto, pesquisadora do Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas (Cebrid) e orientadora do doutorado de Battisti.
Ainda que indique que a maior parte dos usuários abandonou ou reduziu o consumo do ecstasy, as conclusões de Battisti não são amenas. “Muito do impacto negativo passa despercebido e muitas vezes não é associado ao ecstasy”, diz, referindo-se a problemas psiquiátricos. “O ecstasy deixou de ser uma novidade. Passou a ser mais uma droga do arsenal”, conclui.

Leia na edição de CartaCapital que já está nas bancas a polêmica suspensão do financiamento do projeto Baladaboa, que informa usuários dos riscos da droga

terça-feira, 19 de junho de 2007

REVISTA ISTO É, COMPORTAMENTO, EDIÇÃO Nº 1830, 03/11/2004

Juliana Vilas

Conscientizar sem reprimir é a proposta do Baladaboa, projeto que visa diminuir os riscos que o ecstasy, um comprimido à base de MDMA (leia mais ao lado), traz para a juventude. As pílulas, chamadas de "balas", são consumidas largamente em raves e festas embaladas por música eletrônica. O programa é parte da tese de doutorado da psicóloga Stella Almeida, da Universidade de São Paulo, e tem apoio da Coordenadoria da Juventude da Prefeitura.

Para atingir os usuários, Stella, 33 anos, teve de conhecer de perto esse público. Além de frequentar raves, a psicóloga criou um amplo questionário que pode ser preenchido pela internet (www.psicofarmacousp.psc.br), com perguntas do tipo: "Costuma tomar com amigos? Em casa ou em festas?". As respostas servirão para criar uma campanha em 2005. Adepta da redução de danos - estratégia que, entre outras coisas, informa os usuários dos perigos que o produto acarreta e não impõe mudanças no estilo de vida -, Stella diz que não adianta falar que a droga mata. "Reduzir a zero o número de usuários é utopia. Posto que existem pessoas que vão tomar, que seja com os menores riscos", afirma. Sua proposta é, além de conscientizar os jovens, ensinar quem não se livrou da droga a usá-la em circunstâncias menos arriscadas. Stella falou a ISTOÉ.

ISTOÉ - Como é sua pesquisa?
Stella Almeida - Quem já tomou ecstasy responde a um questionário na internet. Até agora, tenho cerca de 500 questionários respondidos. No mestrado fiz o primeiro perfil dos usuários em São Paulo. Com esse novo projeto, quis fazer algo que trouxesse benefícios para esse público. Acho que o que mais funciona é a redução de danos. Reduzir a zero o número de usuários é utopia. Posto que existem pessoas que vão tomar, que seja com os menores riscos.

ISTOÉ - Quem são e onde estão os usuários?
Stella - O grupo que consome ecstasy é elitizado, até pelo preço (o comprimido custa, em média, R$ 30). São pessoas que estudam e trabalham. Há uma preferência pela música eletrônica. A maior parte tem entre 16 e 22 anos,
mora com os pais e se dá bem com eles. Isso quebra a idéia de que usuários têm relação conturbada com a família. Em geral, o consumo é limitado aos finais de semana e é raro alguém tomar sozinho em casa. É indício de que eles têm certo controle sobre a droga e só tomam quando querem.

ISTOÉ - É raro ouvir falar de gente que toma todos os dias, como os
dependentes de cocaína?
Stella - Essas drogas mexem com a dopamina (substância relacionada à satisfação), mas de formas diferentes. Vemos mais esse padrão compulsivo e diário entre os usuários de cocaína. O ecstasy não tem definida essa reação e ninguém encontrou prova disso. Claro que, se o cara toma sempre e de repente pára, estranha. Talvez tenha algum distúrbio de sono. Uma das reações comprovadas é que a pessoa fica deprimida dois dias após o uso. O ecstasy libera toda a serotonina (substância associada ao bem-estar) de uma vez e impede o neurônio de recaptá-la. Ou seja, esvazia o estoque e não repõe. Os usuários devem saber que isso é uma reação passageira. E não adianta tomar mais ecstasy nesse momento. É preciso reestocar serotonina e o corpo demora um pouco para fazer isso.

ISTOÉ - Como será a campanha?
Stella - Não adianta dizer que a droga mata. A pesquisa apontará que informação as pessoas têm, que lendas circulam. A incidência de sexo inseguro, por exemplo, é bem maior quando se toma ecstasy. Temos de dizer: "Sob efeito do ecstasy é mais difícil lembrar da camisinha. Tenha sempre uma por perto." Ficar repetindo "Se tomar ecstasy, não transe" não funciona. Mas tem de saber o jeito de falar para não parecer apologia às drogas.

ISTOÉ - O risco de a campanha soar como apologia parece inevitável.
Stella - Alguns acham que o projeto tem um pé na apologia, mas não é nada disso. O melhor é não usar ecstasy, óbvio. Mas tem gente que toma. Com a lei seca as pessoas pararam de beber? Vamos, então, fazer com que usem de um jeito mais adequado. No caso do ecstasy, além de informar, é preciso preparar os ambientes onde se costuma usar a droga. Como dizer "beba água e descanse" se o jovem vai a um local cheio de fumaça, sem lugar para repousar e onde a água custa R$ 5?