Aviso

A lista de apoio ao Projeto Baladaboa está sendo vítima de algumas assinaturas falsas, seja por pilhéria, seja para envolver nomes ilustres. A lista será encerrada em algumas horas, e devidamente corrigida e limpa.

sábado, 23 de junho de 2007

ECSTASY: VALE A PENA INVESTIR NA REDUÇÃO DE DANOS.

Todos conhecemos o problema causado por drogas de abuso, legais ou ilegais. Os meios de comunicação mostram crescente e incessantemente como esse problema afeta o tecido social não só no Brasil como em várias outras partes do mundo. Diante desse quadro, pesquisadores da área se perguntam como contribuir para minorar esse grave panorama.

Existem várias respostas a essa questão, nenhuma delas satisfatória. Uma proposta, defendida por exemplo pela revista The Economist, é legalizar as drogas atualmente proibidas. Isso evitaria o contato do usuário com traficantes e obrigaria o controle farmacológico da substância. As experiências nesse sentido são poucas e inconclusivas. Há mais dados sobre outra proposta, a proibicionista, mas experiências como a Lei Seca nos Estados Unidos indicam a deficiência dessa estratégia, abandonada devido ao aumento da corrupção e da violência ligadas ao comércio ilegal.

A prevenção pelo amedrontamento consiste em transmitir informações parciais, exacerbando malefícios (“droga mata”) de modo dramático. Além de comprovadamente ineficaz, pois não leva à diminuição do consumo, esse modelo freqüentemente desmoraliza o agente de prevenção e prejudica futuras ações antidrogas. Ainda assim, é bastante utilizado no Brasil. Em nosso trabalho, que vem sendo considerado em certos veículos de comunicação como um incentivo ao uso de drogas, adotamos como estratégia preventiva a Redução de Danos (RD).

Apoiada pelo Ministério da Saúde e pela Secretaria Nacional Antidrogas, a RD parte do princípio de que, quando impossível a erradicação de comportamentos de risco, impõe-se minimizar o dano causado por eles. Por exemplo, previne-se o risco de acidentes quando se recomenda que não se dirija depois de ingerir bebidas alcoólicas. Médicos evitam a morte quando aceitam tratar uma mulher que se submeteu a um aborto em condições precárias. Não se trata de aprovar o aborto ilegal, mas de evitar o mal maior. No caso do ecstasy, a RD reconhece que seu uso existe, comporta riscos e precisa ser entendido no contexto das variáveis que o determinam.

Para entender esse contexto, vimos realizando vários levantamentos. Observando a tendência crescente de consumo de ecstasy, não quisemos ficar encerrados no conforto de uma pesquisa que não levasse à ação. Foi o que motivou a elaboração do projeto “Baladaboa”, ora alvo de discussões na mídia, que questiona a validade do financiamento público que lhe foi destinado.

O projeto consiste em levantamento sobre o universo dos usuários de ecstasy, seguido de intervenção com distribuição de folhetos informativos (flyers) em locais freqüentados pela população-alvo e de uma avaliação dessa intervenção. Os flyers contêm informações sobre riscos do ecstasy e recomendações para reduzi-los.

Ao tratar do desconhecimento da composição do comprimido, por exemplo, os flyers recomendam que a dose seja reduzida à metade. Sobre efeitos fisiológicos, informam que a temperatura corporal elevada pode causar coma ou morte. Nesse caso, a orientação é: “Se você pretende consumir ecstasy, evite fazê-lo sozinho, tome líquidos não-alcoólicos sem exagero, vista roupas leves e descanse a cada meia hora quando dança”. Sobre danos de curto e médio prazo, descrevem as conseqüências psicológicas geradas pela droga, como ataques de pânico, quadros paranóides e depressão. Esse flyer, especificamente, recomenda que o usuário observe se o consumo de ecstasy vem sendo prejudicial e procure auxílio profissional se necessário. Quando a informação dada é sobre o perigo de associação do ecstasy com outras drogas, recomenda-se evitar essa associação e atentar para a interação tóxica que pode ocorrer com os muito utilizados antidepressivos.

Até sábado último, a avaliação da ação apresentava índices altamente positivos. A quase totalidade dos respondentes afirmou que o projeto deve ter continuidade, e mais de 70% dos respondentes usuários declararam que o projeto causou ou vai causar mudanças em seu comportamento relativo ao ecstasy. Assim, os flyers distribuídos vinham atingindo seus objetivos e seu público-alvo.

É um grande equívoco confundir Redução de Danos com apologia da ilegalidade. O uso de substâncias ilíticas ganhou há muito tempo dimensões alarmantes como problema de saúde pública. Projetos inovadores como o Baladaboa merecem apoio e aplicação de recursos públicos, pois trazem uma visão lúcida no trato de temáticas contemporâneas, constroem dados de referência para análise e trazem ganhos sociais e econômicos ao preservar a vida de pessoas expostas ao consumo de drogas.


Maria Teresa Araujo Silva, 67, professora titular de psicologia da USP
Stella Pereira de Almeida, 43, pós-doutoranda de psicologia na USP

15 comentários:

Cássia disse...

Q bom q há informação sobre o projeto aqui. Como apoiar?

Caio disse...

Um verdadeiro absurdo esta caça às bruxas, o Reinaldo Azevedo devia ser processado.

Lucas disse...

Quando vão tomar medidas judiciais?
O cara tem q pagar pelo desrespeito.

Anônimo disse...

Vi o site do Reinaldo Azevedo, e li uma matéria sobre o projeto escrita pela agência USP. Tenho colegas que trabalham na agência USP, e são todos jornalistas sérios. A repiortagem da agência USP não fala em apologia das drogas. O texto do Reinaldo parece uma peça de campanha de difamação. Acredito que nenhum pesquisador sério seria a favor das drogas. A questão é que, para enfrentar o problema, os especialistas veem saídas diferentes. A redução de danos é prática tradicional no tratamento de dependentes, e tem o seu valor, assim como \"drogas, to fora!\" também tem o seu valor. Mas o Reinaldo não pensa assim. Reinaldo gosta é quando gente como o Afanásio chega no dependente e diz \"sua maconheira!\"

Luana Malheiro disse...

Nós, do Coletivo Balance de Redução de Danos, acreditamos que o fato ocorrido com o Projeto Baladaboa foi um grande retrocesso na luta que realizamos no campo da redução de danos no Brasil.
Faz-se necessário atentar para a legalidade das ações de redução de danos, para que ocorridos como estes sejam ponderados.

abraços

Luana Malheiro disse...

http://www.coletivobalance.blogspot.com/

aproveito para divulgar o noso blogg

Anônimo disse...

Qdo vão entrar na Justiça?

Anônimo disse...

Esse é um projeto que realmente discuti o uso de drogas sem perconceitos!

Anônimo disse...

Dois depoimentos relevantes

A discussão está rica, com bons argumentos de lado a lado. Vamos conferir duas análises: a da pesquisadora, defendendo a Política de Redução de Custos; e o usuário de drogas, analisando os efeitos da política sobre o seu univero.

enviado por: Miriam Garcia

Aparece freqüentemente nos comentários postados a questão: Porque não estudar a prevenção do uso de drogas em vez de estudar como diminuir os riscos de quem já se está drogando? Essa questão está associada com as diferentes estratégias usadas no “problema das drogas” :

1) Redução de danos é uma de várias intervenções hoje em dia realizadas em vários paises para diminuir comportamentos que resultam lesivos para o próprio individuo e, como conseqüência disso, lesivos também para a sociedade.

2) Não é de forma alguma a única intervenção possível, pelo contrário, soma forças com as intervenções preventivas primárias e secundarias assim como com outras intervenções como tratamento e policial.

3) Existem também no Brasil programas de tratamento e prevenção primária e secundária financiados por várias instituições, incluindo a FAPESP.

4) Os problemas de uso e abuso de drogas, assim com as suas causas, são bastante complexos. Hoje em dia está claro que apenas uma estratégia de intervenção não é efetiva. A OMS e a Cruz Vermelha propõem e incentivam que sejam usadas várias estratégias, incluindo a de redução de danos.

5) Mesmo com os aprimoramentos realizados cada ano nos programas de prevenção primária e secundária, eles ainda são efetivos apenas para uma porção da população. A redução de danos entra aí, tentando diminuir os riscos em pessoas para as quais os programas de prevenção não foram eficazes.

6) Governos gastam milhões (de dinheiro público) em tratamento de overdose, aids, acidentes, etc conseqüentes do uso de drogas. Caso a redução de danos se mostre eficaz, então uma boa parte do dinheiro público será poupado. Alguns dados internacionais indicam que pode sim ser eficaz, mas ainda é cedo, e mais dados são necessários. Precisa-se, portanto, de mais pesquisa em redução de danos para ter informação sobre o alcance da sua eficácia (custo x benefício).

princípio ativo disse...

O maior crime e a maior irresponsabilidade, em se tratando de políticas de drogas, é quando as pessoas que trabalham com a promoção de saúde às pessoas que usam drogas, como os agentes da redução de danos, são impedidos de trabalhar devido ao mal entendimento sobre o que significam suas abordagens.

Em todas as áreas da saúde, são pensadas abordagens a partir do que é real, e não somente a partir de um ideal [a defesa da abstinência como único caminho possível, por exemplo, parte da utopia de que existirá um dia um mundo sem pessoas se relacionando com drogas]. É por isso que a Redução de Danos é não somente eficaz como também indispensável. Que este mal entendimento tenha ocorrido justamente em uma universidade, mesmo com todo o acúmulo prático e embasamento teórico exposto pela equipe do projeto baladaboa, isto demonstra o quanto este tabu anti-drogas está vivo, o quanto nossas políticas são frágeis e não parecem partir de dados, e sim de entendimentos morais sobre drogas.

Enquanto isso, pessoas estão usando ecstasy; algumas pela primeira vez. Muitas não sabem distinguir o que é a vontade de beber cerveja e o que é a sede provocada pela droga, e irão potencializar os seus danos matando a sede com cerveja. Outras, estarão sujeitas a diversos comportamentos de risco, para elas e para as outras pessoas. Redução de danos é importante para todas as pessoas, incluindo as que não usam. É necessário educar sobre drogas, e a única maneira de fazer isto é através de uma abordagem não-repressiva, que fale a linguagem das pessoas que usam, permitindo um diálogo aberto. Assim é com as campanhas para uso de preservativo, mas já sabemos bem distinguir hoje que aquelas pessoas que são contrárias à presença da camisinha [por a entenderem como apologia ao sexo] sempre fizeram um desserviço. Esperamos que situações como esta sejam cada vez mais associadas aos poucos que, apesar de exercerem poder de decisão, não se demonstram capacitados para o pensar e o agir na área da saúde.

Fabrício disse...
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Fabrício disse...
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silvanus disse...

Alguns poucos gays em Israel tiveram coragem de ir a praça, mostrar a cara e dizer aos rabinos: somos israelenses também e exigimos direitos básicos, como o de amar qualquer pessoa que queiramos.
O ódio mostrou igualmente sua face.
O projeto Baladaboa pretende levar racionalidade, luz da consciência onde brilham luzes artificiais.
Infelizmente, ódios são despertados nessa peleja.
Muita força e que tudo possa ser levado a bom termo!

jura disse...

Prezadas Maria Teresa e Stella, alunos da pós-graduação (RDs e não-RDs) discutiram a respeito da situação a que foram submetidas e, a meu ver, chegamos às seguintes conclusões:
- há um contexto de animosidade de certos veículos de comunicação com a atividade acadêmica, em particular com a produzida nas universidades públicas; por isso, o projeto Baladaboa foi usado como bode expiatório.
- há uma discussão acirrada entre representantes de visões diferentes sobre a hegemonia do enfrentamento ao uso de drogas, em nível não só local, mas também nacional e internacional; no caso, parece-nos que o grupo que defente estritamente a repressão associada com abstinência aproveitou o ensejo para desmoralizar a proposta de redução de danos.
- a Fapesp foi precipitada, no mínimo, ao suspender o financiamento da pesquisa e do projeto sem realizar qualquer consulta prévia às pesquisadoras e ao IP; por isso, RDs da pós encaminhariam pedidos de apoio dos colegiados do IP (Congreação, Pesquisa, Ética, CPP etc.) a alguma moção pedindo a anulação da suspensão, enquanto se apura devidamente os fatos, sem se submeter a acusações vis e suspeitas; se alguma solicitação de apoio já tiver sido encaminhada, os RDs apoiarão.
- tal procedimento da Fapesp (supender para averiguar) não é inédito e precisa ser discutido pelos nossos representantes competentes nos órgãos colegiados dessa agência pública de financiamento de pesquisas.
- a situação causa danos morais às pesquisadores, ao IP e até à Fapesp; por isso, somos solidários com uma orientação jurídica para reivindicar os direitos de defesa, de reparo de danos e de justiça em relação ao órgão de imprensa que causou o dano.
Joari - RD da pós na Congregação

Gustavo Uriartt disse...

Assinei a petição no "Blog" do Idelber. Fico triste quando bons estudos são interrompidos por conta de gente que não sabe distinguir a diferença entre apologia e informação. Tenho plena certeza de que a continuidade do trabalho vai acontecer. A informação de qualidade sempre vence.